quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Refinação

Às vezes apetecia-me puxar pelas mil e uma que existem dentro de mim, mandá-las ao ar como um baralho de cartas e ver qual delas caía primeiro, qual delas virava a face. Torna-se cada vez mais óbvio que o “eu” que apresentamos é fruto de uma construção. Uma construção de ideias, de princípios, de vontades, de imagens, de vícios que fomos arquitectando até chegar à obra final, numa sucessão de maquetas imperfeitas e inacabadas. E a verdade é que consoante a direcção do jogo, começamos a saber puxar do trunfo que nos fará ganhar a vaza. Sem acaso. Pouco genuíno, talvez. Mas, no fundo, não passa de um processo de auto-conhecimento que dilui o ruído e peneira a substância mais pura, como pequenos diamantes que sempre tivemos bem no fundo e que vamos aprendendo a fazer brilhar. É isto que fazemos quando, num profundo momento de fraqueza, saltam da cartola as palavras que demoraram rios de sal a sair com tranquila leveza. Apaga a luz da amálgama mundana, putrefacta de desejo e ciúme. Brilha o mais digno de nós num púlpito altivo de lucidez. “E agora queira dar licença que eu já vou.”

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Ó chefe!

Sai um balde de água fria para o número seis, primeiro direito, faxavor!

PS: Aceitam-se outras sugestões para combater um acentuado (e anunciado) aquecimento nocturno.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Piano Concert No. 2 In C Minor

Os posts são como os orgasmos [esta paga direitos de autor]! Primeiro que uma pessoa chegue lá... Senhores! Sobretudo para quem não vai lá por acesso directo, mas... adiante!
Ora, o processo de escrita de um post: para alguns, aqueles que são fartos em boas ideias e em talento, embora acredite que nem sempre seja um processo fácil, deve ser mais ou menos como andar de bicicleta, nunca esquecem e, mais coisa ou menos coisa, chegam lá. E é bom!; para outros, os tais que "não vão lá" com essa facilidade, o processo é mais sofrido, mas mais compensador. Porquê? Primeiro: precisam de achar que encontraram uma boa ideia, uma frase que dê o mote. Segundo: precisam de tempo para amadurecer essa ideia [às vezes pedem a alguém que os ajude, mas também se safam bem sozinhos]. Terceiro: estão ali algum tempo no escreve, apaga, escreve, apaga, o que lhes dá alguma "pica" porque começam a desconfiar que o resultado vai ser de qualidade, qual composição de Rachmaninov para piano! Quarto: uma vez que não foram tão abençoados quanto o russo genial, têm que ter mais paciência e insistem e tentam outras formas de dar a volta ao texto e voltam à forma inicial e já suspiram porque agora que estavam tão entusiasmados com a escrita é que já estão a adivinhar o desenlace da história, então forçam-se a apagar uma linha ou duas e reescrevem e voltam a apagar para tornar a escrever da mesma maneira e escrevem, escrevem, escrevem com as ideias a fluir cada vez melhor e mais depressa e... aaaaaaaaaah! Voilà! [E estou em crer que assim é muito melhor do que quando as ideias se atropelam todas logo de início e se chega ao fim num abrir e fechar de olhos]

domingo, 13 de janeiro de 2008

Interlúdio

E agora, caros leitores, um temático interlúdio literário-musical, entre Adolfos e Marqueses, sob o jugo do último dos pecados. Que se inflamem as hostes e reflictamos em mais sete dias que se avizinham! Sem dúvida, uma visão masculina. Sem dúvida, uma visão interessante nesta noite quente. De chuva. A sétima, que há sete dias atrás também o foi: a da luxúria.

"Falais-me dos laços de amor, Eugénie; oxalá nunca os conheçais! Ah! Que um tal sentimento, pela felicidade que vos desejo, nunca se aproxime do vosso coração! O que é o amor? Parece-me que só poderemos considerá-lo como o efeito resultante das qualidades em nós produzidas por um belo objecto; estes efeitos arrebatam-nos; inflamam-nos; se possuirmos o objecto, eis-nos contentes; se nos for impossível tê-lo, desesperamos. Mas qual é a base deste sentimento?... O desejo. Quais são os resultados deste sentimento?... A loucura. Falemos do motivo e provemos os resultados. O motivo consiste em possuir o objecto; pois bem! Tentemos consegui-lo, mas com sagacidade; gozemo-lo quando o tivermos; consolemo-nos no caso contrário: mil outros objectos semelhantes e, frequentemente muito melhores, consolar-nos-ão da perda daqueles; todos os homens, todas as mulheres se parecem; não há amor que resista aos efeitos de uma sã reflexão. Oh! Não há maior engano do que essa loucura que, absorvendo em nós os resultados dos sentidos, nos coloca em tal estado que deixamos de ver e existir, senão para esse objecto loucamente adorado! É isso viver? Não será antes privar-se, voluntariamente, de todas as doçuras da vida? Não será querer permanecer devorado por uma febre ardente que nos absorve e nos devora, deixando-nos apenas a felicidade dos gozos metafísicos, tão semelhantes aos efeitos da loucura? Se devessemos amá-lo sempre, a esse objecto adorável, se fosse certo que nunca devessemos abandoná-lo, seria indubitavelmente uma extravagância, mas, pelo menos, desculpável. Acontece isso? Têm-se muitos exemplos dessas ligações eternas, que nunca se desmentiram? Alguns meses de gozo que depressa devolvem ao objecto o seu lugar verdadeiro, fazem-nos corar pelo incenso que queimámos nos seus altares e vamos muitas vezes ao ponto de nem sequer conceber que ele tenha podido seduzir-nos até esse ponto.

Oh, raparigas voluptuosas! Entregai-nos, pois, os vossos corpos, tanto quanto puderdes! Fodei, diverti-vos, eis o essencial; mas fugi cuidadosamente do amor. Ele só tem de bom o físico, dizia o naturalista Buffon, e não era só por isto que era bom filósofo. Diverti-vos, repito; mas não ameis; não vos perturbeis por isso: não deveis externuar-vos com lamentações, suspiros, olheiras e ternos bilhetes; o aconselhável reside em foder, multiplicar e trocar frequentemente de parceiros; deveis, sobretudo, opor-vos a que um só queira cativar-vos, pois que o fim deste amor constante seria, ligando-vos a ele, impedir-vos de vos entregar a um outro, egoísmo cruel, que cedo se tornaria fatal aos vossos prazeres. As mulheres não são feitas para um só homem: foi para todos que a natureza as criou. Se escutarem apenas esta voz sagrada, deverão entregar-se indiferentemente a todos aqueles que as queiram. Sempre putas, nunca amantes, fugindo do amor, adorando o prazer, só encontrarão rosas no caminho da vida; só nos prodigarão flores!"

Marquês de Sade, A filosofia na alcova

Alguém me explique

... como se mantem a dignidade, quando nos vemos envolvidos num jogo em que não quisemos participar.

A propósito destes jogos, há uns que valem a pena ver.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Frases e filosofias para uso dos jovens

"Como costumava dizer um famoso relações públicas da noite lisboeta, o mês de Janeiro é o mais engonhado de todos. Depois dos excessos natalícios e de fim-de-ano, fica tudo um pedaço embotado. O dinheiro gasto, o físico também. Mas não podemos esmorecer: está aí um ano novinho em folha para desfainar. É claro que toda a gente pensa no ano que vem antes de ele chegar. Alguns aproveitam para fazer projectos de vida, promessas e juras. Chama-se a isso as Resoluções de Ano Novo, que os jovens pensam serem um hábito recente. Mas não. Consta que são já anteriores ao nascimento de Cristo, o que equivale a dizer que são mais antigas que o Natal. Os romanos também pensavam, quando o Ano Novo se avizinhava, em ir mais ao gymnasium, e em moderar as orgias. Como se pode ver, continua tudo mais ou menos igual.
Não havia era previsões da OCDE, nem do Banco de Portugal para nos ralarmos. Havia sempre os deuses a quem implorar - sacrificavam-se mais umas virgens, atiravam-se mais uns quantos aos leões, e pronto: talvez o ano corresse de feição.
Nesta era do individualismo hard-core e da descrença, estas coisas já não funcionam. Há que ler o Orçamento de Estado para 2008, o Tratado de Lisboa, e estar a par das cotações da bolsa para saber se o nosso destino vai, finalmente, mudar.
Mas será que queremos realmente mudar, ou tudo não passa de uma fantasia típica da época, para nos ocupar durante o mês de Janeiro e chegarmos a Fevereiro exactamente na mesma? Os cientistas antropológicos apontam para esta última hipótese. Tudo indica que as Resoluções de Ano Novo fraquejam pouco depois de serem tomadas. E ainda bem. Elas representam o nosso lado mais careta e auto-repressor. Parecem ditadas pelo provedor Diácono Remédios que cada um de nós tem a viver dentro de si, e que ataca especialmente nesta altura do ano. Já repararam como quase todas começam pelo verbo «deixar»: de beber, de fumar, de comer? Nunca ninguém anuncia «vou divertir-me mais este ano», «vou ter mais sexo» ou «vou estoirar o dinheiro do PPR». Esta tradição enjoativa também ajuda à engonhice do mês de Janeiro: andam todos convencidos, pelo menos até dia 15, que se vão regenerar, e que este ano é que vai ser, e blah, blah, blah. Perante isso, há gente que, precavida e sábia, já nem toma resoluções. Começa o ano sem perder tempo, virando serenamente mais uma página do calendário e planeando ao pormenor a alegre continuação de uma vida dedicada a soltar a franga.
Pensando nuns e noutros, deixo algumas sugestões.
Para o folgazão imperturbável: A desfaina do mês de Janeiro tem que se lhe diga. É preciso ter muita vontade, vencer o frio que cola qualquer um ao sofá e, principalmente, «não se pôr com coisas». Tem de se ir atrás das tentações, por pequenas que sejam. O tamanho não importa. Ao contrário de Dezembro, em Janeiro devem aceitar-se todos os convites para festas, jantares, lançamentos ou inaugurações. A partir da segunda quinzena, é provável que comece a encontrar os primeiros desistentes das Resoluções de Ano Novo, ainda envergonhados, hesitantes, e a cravarem cigarros porque deixaram de fumar. Para os evitar, aconselha-se a noite dos impenitentes, à terça-feira.
Para o folgazão arrependido: Se acha mesmo que a sua vida muda com a passagem de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro, o melhor é fazer listas. Fica tudo escrito e assim não haverá desculpas. Listas longas e pormenorizadas. Escreva agora e compare no final do ano, ou mesmo daqui a dez.
Para fazer uma lista infalível, deve substituir a habitual expressão «vou deixar» por «vou mudar», e escrever à frente: de marido(a)/ de namorado(a)/ de amante/ de marca de cigarros/ de música/ de roupa/ de clube/ de droga/ de ares/ de conversa.
Se, na pior (e muito previsível) das hipóteses, não conseguir cumprir as promessas que fez a si próprio, só tem uma solução: suborne-se a si mesmo. Mas não conte a ninguém.
Quanto a mim, o que posso contar é que na única lista que fiz, há uns anos, queria ir a Berlim, comer menos batatas fritas e ganhar o euromilhões. Ainda não fiz nada disto. Desde aí fiquei alérgica às Resoluções de Ano Novo: estou pobre, gorda, e só consigo ir a Barcelona. Mas pelo menos nunca prometi que ia deixar de fumar, ou de fazer sexo em grupo. Há que ser realista.
E demais, tenha sempre em mente o ensinamento do outro que, por não conseguir tomar uma resolução, foi parar à prisão: «Todas as boass resoluções têm uma fatalidade: são sempre tomadas demasiado cedo»."

[Maria Antónia Oliveira & António Néu, in Blah, Blah, Blah, Janeiro de 2008]

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Hmmm...

Porque é mulher. Porque é bonita. Porque tem uma voz rouca, doce, sensual. Porque é uma declaração de amor das mais bonitas que já ouvi. Porque aquece. Porque excita. Porque embala. Porque acaricia o fundo.


Carla Bruni, Le toi du moi

Je suis ton pile
Tu es mon face
Toi mon nombril
Et moi ta glace
Tu es l'envie et moi le geste
Toi le citron et moi le zeste
Je suis le thé, tu es la tasse
Toi la guitare et moi la basse

Je suis la pluie et tu es mes gouttes
Tu es le oui et moi le doute
T'es le bouquet je suis les fleurs
Tu es l'aorte et moi le coeur
Toi t'es l'instant moi le bonheur
Tu es le verre je suis le vin
Toi tu es l'herbe et moi le joint
Tu es le vent j'suis la rafale
Toi la raquette et moi la balle
T'es le jouet et moi l'enfant
T'es le vieillard et moi le temps
Je suis l'iris tu es la pupille
Je suis l'épice toi la papille
Toi l'eau qui vient et moi la bouche
Toi l'aube et moi le ciel qui s'couche
T'es le vicaire et moi l'ivresse
T'es le mensonge moi la paresse
T'es le guépard moi la vitesse
Tu es la main moi la caresse
Je suis l'enfer de ta pécheresse
Tu es le Ciel moi la Terre, hum
Je suis l'oreille de ta musique
Je suis le soleil de tes tropiques
Je suis le tabac de ta pipe
T'es le plaisir je suis la foudre
Tu es la gamme et moi la note
Tu es la flamme moi l'allumette
T'es la chaleur j'suis la paresse
T'es la torpeur et moi la sieste
T'es la fraîcheur et moi l'averse
Tu es les fesses je suis la chaise
Tu es bémol et moi j'suis dièse

T'es le Laurel de mon Hardy
T'es le plaisir de mon soupir
T'es la moustache de mon Trotski
T'es tous les éclats de mon rire
Tu es le chant de ma sirène
Tu es le sang et moi la veine
T'es le jamais de mon toujours
T'es mon amour t'es mon amour

Je suis ton pile
Toi mon face
Toi mon nombril
Et moi ta glace
Tu es l'envie et moi le geste
T'es le citron et moi le zeste
Je suis le thé, tu es la tasse
Toi la putain et moi la passe
Tu es la tombe et moi l'épitaphe
Et toi le texte, moi le paragraphe
Tu es le lapsus et moi la gaffe
Toi l'élégance et moi la grâce
Tu es l'effet et moi la cause
Toi le divan moi la névrose
Toi l'épine moi la rose
Tu es la tristesse moi le poète
Tu es la Belle et moi la Bête
Tu es le corps et moi la tête
Tu es le corps. Hummm !
T'es le sérieux moi l'insouciance
Toi le flic moi la balance
Toi le gibier moi la potence
Toi l'ennui et moi la transe
Toi le très peu moi le beaucoup
Moi le sage et toi le fou
Tu es l'éclair et moi la poudre
Toi la paille et moi la poutre
Tu es le surmoi de mon ça
C'est toi Charybde et moi Scylla
Tu es la mère et moi le doute
Tu es le néant et moi le tout
Tu es le chant de ma sirène
Toi tu es le sang et moi la veine
T'es le jamais de mon toujours
T'es mon amour t'es mon amour

Já lá vai um mês?!

Comemorar um mês de existência é uma coisa espectaCLar! Ainda mais quando se está de boa saúde. "Temos orgulho no nosso rebento e isso tem que ser festejado", pensámos. Vai daí que isso implica, naturalmente, copos, bailarico e boa companhia. Nada mais óbvio que o tão aclamado Chico da Vaca como destino, rumo à noite mais alucinada do mês. Pelo menos assim prenunciava... As ideias, os pensamentos, sentimentos e sensações fervilhavam. A vibração que de nós saía pedia exorcismo e a velha química de irmãs siamesas voltava a surgir. Como o cheiro da casa de infância que se sente no local mais inusitado. Afinal o rebento ia bem mais além do virtual e revelava-se o elo esquecido [mas não perdido], fruto de partilhas de essências tão familiares. E a música tocava no coração. Tantas vezes! Abraços para aqui, beijos para ali, juras de amor eterno entre as duas que julgavam saber viver uma sem a outra. A vida surpreende-nos a cada dia... E para comemorar o melhor que a vida lhes deu no último ano, toca de emborcar meia de dúzia de copos de vinho zurrapa e esquecer as nódoas negras de tempos idos. Ai! Não há emoção que aguente! E emoção é o seu nome do meio. Porque no fim de contas, de uma forma ou de outra, nunca deixaram de falar de amor. E o quanto teceram, fiaram e bordaram a esse respeito resultou num patchwork de risos, choros, raivas, ternuras, alucinações e outras humidades. Ah... o sexo! E que melhor forma de culminar esta comemoração orgíaca de ideias senão entre braços quentes e línguas suadas? Uma e outra vez, minha amiga maior que o pensamento! É sempre a aviar cartucho!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Tratado de paz?

A propósito do viajante do Vai e vem de ontem, alguém me perguntou agora mesmo "Então, já fez as pazes?". Sorri. Senti o estômago numa reviravolta e respondi "Sim, acho que sim! Acho que fiquei mais sossegada. Hoje, só...". "Antes tarde...", responderam os sábios 71 anos da minha mais recente amiga. Saiu logo depois, também ela mais tranquila. No último mês tem andado aí numa azáfama a ver se me evangeliza e se, de uma vez por todas, baixo a guarda. Obrigada.

[Tenho dúvidas de que as tréguas sejam para todo o sempre mas, pelo menos hoje, abracei-o duas vezes. Uma conquista!]

E ficamos caladinhos, pois claro

Quando "ética da responsabilidade" não significa mais do que o cinicamente aclamado défice democrático, este é o resultado que temos.

Não há paciência para tanta demagogia, nem para as tangas que nos impingem durante 4 anos numa faculdade.