quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Da arte de desmanchar animaizinhos e outras actividades lúdicas

É... desmanchar [1. desfazer; 2. desarranjar; 3. deslocar; 4. revogar; 5. transformar; 6. destruir, inutilizar; 7. provocar aborto em; 8. esquartejar (animais domésticos para lhes aproveitar a carne)]. O verbo que mais se empregou ontem ao almoço. Éramos 3, mulheres, mas desmanchámos ali melhor que muitos homens! Tudo começou com alusões a medos e fobias dos tão amorosos animais domésticos que são os gatinhos [Pânico!]. Pois que fomos andando, andando, andando até que estacionámos no domínio dos animais da quinta. Amorosos, boas companhias e, coitados, saborosos. Daí a falar em bancadas de madeira maciça, grandes facalhões de serrilha bem afiada e nas histórias da terra contadas pelo senhor Severo, foi um saltinho. E aquilo é que foi ver porcos, coelhos, galinhas, borregos a serem esquartejados com dó e piedade, porque não deve ser tarefa fácil. Depois do sangue derramado ainda desmanchámos um edifício público e um ou outro artigo científico. E qual é o mal?

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A última noite...

Desapego. Felizmente, não tenho sofrido muito com a(s) mudança(s) de ninho. Desta vez não será diferente. Se bem que um formigueirozinho, algo desconcertante, enquanto me despeço daquele espaço. Reanimo situações vividas noutros tempos e o coração desata a ficar pequenino e triste.

Espaço em que fui mais eu, em que me descobri, paredes que contam histórias de descobertas. Entre o choro e o riso. Mesmo assim, desapego. Ao que é material. Encara-se a mudança apenas como mais uma. Um passo em frente, rumo ao não-sei-o-quê do futuro. Incerto. De imagens pouco nítidas. Um dia depois do outro, apenas.
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E permaneço apegada ao desapego às coisas como atenuante da dor.


Cozinha da Casa de Manhufe, Amadeo de Souza-Cardoso (1913)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Ah, Nina!



Love me or leave me, Nina Simone

Muito bom! Como sempre nos habituou.
Bons sonhos.

Exorcizar em 3 fases

A batida.

A voz.

O homem.


Odara, Caetano Veloso

Feira da Ladra

Terça-feira. Dia de quebrar mais uns silêncios. Pôr em exposição tudo o que é artigo para expôr, que eu cá, em dia de feira, tento não guardar nada para mim. Porém, quando passa aquela cliente especial disponibilizo mais um ou outro que, não por acaso, ficou, digamos, esquecido no fundo do baú dos trapos que compõem esta banca. E é um alívio quando isto acontece. O que ela percebe de trapos...! Tira-os um a um e ficamos ali uma boa hora e meia a tecer considerações sobre o mau estado em que se encontram e sobre o que se pode sempre fazer com eles. Não em jeito de remendo, antes de forma a criar uma peça única e una de retalhos de qualidade. Obrigada!

E a rapariga desce a escada quatro a quatro
vai vender mágoas ao desbarato
vai vender juras falsas
amargura ilusões
trapos e cacos e contradições

Sem título para tal silêncio

Do tanto que se não diz e quer dizer ficam os intervalos de silêncios consentidos. Porque cada um é livre de calar. A dor. De gritar alegrias que hiperbolizam uma vida que há muito traz a morte anunciada. E no rame-rame dos dias faz-se descobrir tudo o que já não têm de sorriso. Porque esse apenas se faz saber a quem tem a ousadia de o suplicar. Por isso, a dificuldade de os olhos olharem nos olhos. Porque não mentem. Pedir que olhem por mais alguns instantes, ainda que breves, é rasgar liberdades que vão além do direito de cada um de ser livre. Mesmo sabendo que os silêncios, quando impostos, deixam nós na garganta e revelam estados de alma que a todo o custo queremos esconder.

domingo, 5 de outubro de 2008

E uns bordados para levar para a terra... não tem, menina?

Reciclar?

Os homens têm fases. Tenho-os observado. Provavelmente, as mulheres também, mas nos homens parece mais evidente.

A adolescência é descoberta, faz-se de experiências, de frenesim meio alucinado, passam para o estágio seguinte ainda em estado de anestesia e quando se dão conta estão estagnados num marasmo quotidiano que pouco lhes traz da loucura dos anos anteriores. Aí param e olham em redor. Têm duas opções: aceitam que a vida mudou e seguem caminho, dão a volta à questão e agarram-se às partes boas ou então não. Ou então, deixam-se embalar nos impulsos, deliciam-se com novidades, com desafios, loucuras, vão ao ginásio, ouvem outra música, galanteiam outras mulheres, com o charme discreto que amadureceram, usam ténis.

Não sei o que lhes sinto. Ousar mudar depende sempre do quão importante é aquilo que passa a ficar no passado. Cumprindo essa certeza em sensatez, qualquer uma das opções é um acto de coragem: manter ou mudar.

Se não se adormecessem os sentidos, talvez nunca surgisse sequer a insatisfação.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Nobody made this war of mine



Mysteries, Beth Gibbons

Tired of being polite

"Bom, agora trata de ser educada com os teus avós, com os teus tios, primos em 1.º grau, 2.º, 3.º, quinquagésimo, com o teu tetra-avô se alguma vez o chamares para que te acuda lá do sítio onde Deus o tem em descanso" / "Pede com licença, desculpe e obrigada o maior número de vezes que fores capaz [por minuto], um dia serás premiada" / "Diz que sim, pode ser, está bem, por mim é como queiras, mesmo que não seja bem aquilo que te apetece fazer" / "Sorri sempre para o teu maior inimigo, mas o melhor mesmo é gostares de toda a gente e não teres inimigo nenhum, porque ele também só te fez uma rasteira, foste com os dentes ao chão e ficaste com a tromba toda arranhada, mas coitado..." / "Na fila do supermercado se tiveres 4 artigos deixa sempre o senhor de trás passar à tua frente, é que ele só tem 3...". And so on!

E eu estou farta de ser polite. Por tudo e por nada. De ser a fixe porque para mim está sempre tudo bem. Para não melindrar os outros, fico sempre com grandes melões. Para não os deixar tristes, envergo o sorriso mais amarelo e lá vou eu a cantarolar. Para não ouvir ralhetes, lá vou eu dar beijos nas faces peludas das senhoras donas idosas da terra dos avós. Para não me zangar com a mãe respiro fundo, conto até três e pode ser que passe. Para não mandar os mais novos ganharem tomates e é se querem realmente ser responsáveis como parecem, mando mensagens que terminam sempre com uma piadola, um beijo grande ou um smile daqueles ridículos. Para não mandar o pai para a puta que o pariu, ando aqui a engolir sapos e a fazer malabarismos e truques de magia como quem tira notas de 500 da cartola para ter alimento para os coelhos. E é isto.

(not) Politely yours,
vinho