domingo, 21 de março de 2010

Finalmente

A melhor estação do ano.

sexta-feira, 19 de março de 2010

O tempo em Lisboa pode ser "um cachorrinho simpático"

Pisar Lisboa foi uma experiência aterradora. Não foram o trânsito infernal ou o tempo perdido em transportes públicos os motivos da minha aflição e do desejo de fugir para o sossego da pequena cidade. O tormento foi e é olhar restos de vida que se fazem ver muito mais aqui do que lá. A progressiva ligeireza ao passar por eles e quase já nem os ver é, essa sim, um ciclope maldisposto. Mas até com o tormento se aprende a viver...

Lisboa não é a cidade perfeita, nem queremos que o seja. Normalmente o que é perfeito enjoa-nos, engana-nos, porque na realidade não o é. E Lisboa não engana ninguém, mostra-se diariamente tal como é: um reboliço pegado que todos os dias tem para nos oferecer verdadeiros sopros de vida. E não me refiro apenas, nem principalmente, à música, ao teatro, ao cinema, às exposições... Penso no 28, no Jardim da Estrela, na relva do CCB, no quiosque do Camões, na calmaria da Sá da Costa, no Adamastor, na Praça das Flores, no miradouro da Graça, na delícia de conversar com ela em dias de sol e de poder abraçá-la quando chegam as primeiras cores do Outono.

Em Lisboa o tempo também dá a sensação de que não passa. Os transportes não são sempre diabólicos, as ruas não se assemelham sempre a formigueiros e é possível chegar em 10 minutos a muitos lugares catitas. O sol brilha de manhã e toma-se o pequeno-almoço na Confeitaria Nacional e logo depois exercitam-se as pernas num passeio à beira rio, onde se faz um piquenique sobre uma toalha aos quadradinhos. A tarde? A tarde tem tempo para ser o que se quiser e pelas 19h juntam-se os amigos para os caracóis e as imperiais, decide-se depois onde se quer jantar e a noite faz-se onde mais nos apetecer. Cada lugar pode muito bem ser aquilo que deixamos que seja...

Há muito que fizemos as pazes, eu e ela. Há anos que somos inseparáveis.

Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

[Mário Cesariny]

quinta-feira, 18 de março de 2010

Dicas cá da terra

Fui dar com um blog muito giro cheio de ideias e lavores com muito bom gosto e - esta é a parte melhor - feitos cá na terra. Argolasargolinhas. Mal entrei dei de caras com um "cache-pescoço" que além de funcional é fashion que se farta.


Depois, entre os sacos que gobicei à grande, fui encontrar umas almofadas de cereais, nada mais nada menos, que umas almofadinhas recheadas de cereais e ervas aromáticas. Após aquecer ou arrefecer, servem para aliviar dores musculares ou aquecer as camas dos minorcas.

Pois que gostei e recomendo. Parabéns à Helena.

sábado, 13 de março de 2010

Fetiches



Uma manga arregaçada. Um braço descoberto.

segunda-feira, 8 de março de 2010

terça-feira, 2 de março de 2010

Verónica

Não lhe gostava do nome, mas dela, por si só. Das coisas que lhe saiam da boca perfeita. Falava-me de feministas e comportamentos híbridos de género do alto dos seus recentes trinta. Quase sempre trazia o cabelo solto, bastante comprido, louro, louro, louro, gritantemente louro a rodear os olhos brilhantes verde-água, as feições delicadas, contornos firmes, esguios. Ela toda esguia, altíssima e nunca altiva, sempre descontraída, natural ao seu estilo casual. Olhava com um misto de doçura e sensualidade, uma vergonha na certeza daquilo que emitia em seu redor. Nós que nos rendíamos à sua sapiência, à vanguarda de pensamentos e modos, aos seus amigos bonitos que trazia para falar de recentes happenings, performances, instalações, manifestos. Eles num óbvio esforço por lhe agradar, ela educadamente indiferente, eu fascinada. Quase a medo de lhe falar, absorvia-lhe tudo, derretia-me nas nossas divagações, nas propostas de tese, no entusiasmo, na prontidão, numa cabeça tão igual à minha, mas a milhas de distância em deslumbramento. Acho que nos apaixonámos ali, sei-o hoje, entre os papers, a Donna Haraway, as apresentações, o Artaud e a Orlan, sob o tecto daquela que se diz católica.

Beat para um dia solarengo

segunda-feira, 1 de março de 2010

A tudo o que é demasiado certo.

Tretas. Irritam-me as pessoas demasiado certinhas, aquelas que têm tudo organizado, que não se esquecem de nada, conseguem cumprir todas as suas tarefas e ainda comprar o presente de aniversário do amigo do filho. Aquelas a que nada falha, pelo menos aos olhos de todos. As que vivem sob premissas de verdades inquestionáveis e modelos padronizados de vida, o modus estudar-tirar curso-arranjar emprego-casar-ter filhos. Revoltam-me ainda mais os rios de depressões desencadeados pela impossibilidade/dificuldade de o cumprir. As pessoas não vivem segundo os seus próprios padrões, não seguem o caminho no sentido dos seus quereres, mas sim segundo os modelos a que se auto-propuseram, mesmo não intencionalmente. Como se alimentassem a sua autêntica espiral de loucura e obsessão, quase por masoquismo e uma absoluta dose de perfeccionismo.

“A vida muda depois de sermos mães”. Outra grande treta. A vida muda tanto quanto o fim ou início de uma relação, a morte de uma mãe, um erro profissional. As mudanças são para quem as quiser aceitar porque no final, continuamos a ser o que sempre fomos: amigas, filhas, amantes, mulheres. Consinto apenas uma excepção no que conta ao sentido de confiança, segurança enquanto pessoas. De sentido mais apurado para o que realmente interessa e não interessa. Para melhor, portanto. No fundo, a essência mantém-se e, a meu ver, não se deve sequer tornar opaca. É fantástico, é magnânime é único e é eterno. É bom demais e nunca um precipício, um acontecimento abrupto, duro e de cara voltada para o passado, para o contínuo suspiro pelo que se era e se teve e se aspirou.

Vivo numa casa às vezes caótica, a minha filha nunca adormeceu à mesma hora, nem sempre janto, nem sempre almoço, esqueço aniversários, não dou a devida atenção aos amigos, não deixei de dizer asneiras, não vou deixar de beber uns copos. Vou no sentido que quero, ainda sou quem era e nunca mais serei a mesma.