terça-feira, 13 de abril de 2010

Em pleno Séc. XXI

Está grávida e a morrer de medo de contar ao patrão. É um filho muito desejado, planeado há algum tempo, mas ela vai dizer que não estava à espera. Receia pelo trabalho que vai ficar pendurado, pelas pessoas que ficarão sobrecarregadas, pela ausência de substituto a quem possa calmamente passar tarefas. Receia sobretudo as represálias que, quase de certeza, irá sofrer. Ele não vai gostar e não vai ter qualquer problema em dizê-lo. Vai culpá-la de não ter noção das coisas e ser irresponsável e com a maior indiferença não terá pejo em suspender o contrato com ela antes mesmo de regressar. Sem dificuldade, através de uma qualquer aldrabice que tão bem domina, para o fazer parecer legal e à sua maneira.

Dá-me vómitos.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

sábado, 10 de abril de 2010

Para a vinícola

Sou aluna das ervas e frequento
O curso nocturno do amor
Folheando o cão que lambe o gato
Sem saber que faz de professor.


Pedagogia, Natália Correia

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Refresh


Os blogs, tal como as casas têm alturas de menor permanência. Ou pela azáfama aumentada, ou por férias ou saídas e passeios. Também, tal como as casas, precisam de ser arejadas no regresso, tirar o cheiro a mofo de habitáculo fechado. E depois cá passamos a soltar um som para levantar as poeiras. Faz-se a cama de lavado, abrem-se as janelas, liga-se a radiola. Mandam-se embora os maus fluidos com o reentrar da luz, demónios e coisas que tais. Os interregnos sabem sempre bem: os de agitação e os de calmaria. E eis-nos sempre a regressar a casa.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Cara de quem carimba postais

E depois é o vazio. No final da apresentação de um trabalho. Quando defendemos a tese. Depois de um exame. Quando chegamos de viagem e pensamos que podíamos ter aproveitado melhor. Quando aterramos num outro país e sentimos que não queríamos estar ali. Nos últimos cartuchos de uma festa de arromba. No final de uma aula que preparámos com mil cuidados. No fim de um banho revigorante. Depois de uma noite de amor... Depois é o vazio para quem estupidamente vive insatisfeito. Para quem, ao invés de sorrir em cada pequena vitória, teima em esmiuçar as tristezas e chamar àqueles momentos felizes puros acasos. Não vá o diabo estar à espreita...

sexta-feira, 26 de março de 2010

Fado

José Malhoa

terça-feira, 23 de março de 2010

Notícias da actualidade



Eu fui fazer um samba em homenagem
à nata da malandragem, que conheço de outros carnavais.
Eu fui à Lapa e perdi a viagem,
que aquela tal malandragem não existe mais.
Agora já não é normal, o que dá de malandro
regular profissional, malandro com o aparato de malandro oficial,
malandro candidato a malandro federal,
malandro com retrato na coluna social;
malandro com contrato, com gravata e capital, que nunca se dá mal.
Mas o malandro para valer, não espalha,
aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal.
Dizem as más línguas que ele até trabalha,
Mora lá longe chacoalha, no trem da central.

Manel

Foto de Clara Azevedo


É este o Manel João, tal e qual aqui se vê. Absolutamente alucinado, a deambular mentalmente entre as imensas personagens que incorpora. Meio tolo, com laivos de inocência, a lascívia do costume, a desorientação parece tomar-lhe conta da cabeça, da vida. Faz e diz o que quer, está-se nas tintas para o que pensam dele ou para fazer boa figura perante a aparente importância de ser entrevistado de Anabela Mota Ribeiro. Sem filtro pela anarquia da conversa, mas carregada dos filtros que imprime aos próprios heterónimos. Ficamos na dúvida se estamos perante uma clara confusão de identidade ou uma assumida intenção de não ser coisa nenhuma para poder ser uma qualquer.

Não deixa de me fascinar, o Manel João. Gosto do ar alheado, como se acabado de sair da casa de repouso. Gosto que choque, como canta conas e caralhos em profunda seriedade de caso. Está velho, queimado, mas certo da vida que escolheu. É uma certeza que se inveja. Vê-se-lhe nos olhos a paz de espírito de quem seguiu um ideal à sua maneira. E os olhos alheios que se fodam.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Inspira. Expira. Exorciza.

Descobertas do Dia Mundial da Poesia [21/03]

É importante foder (ou não foder)?

É importante foder (ou não foder)?
É evidente que não, não é importante.
Fode quem fode e não fode quem não quer.
Com isso ninguém tem nada
Mas mesmo nada
A ver.

O que um tanto me tolhe é não poder confiar
Numa coisa que estica e depois encolhe,
Uma coisa que é mole e se põe a endurar e
A dilatar a dilatar
Até não se poder nem deixar andar
Para depois se sumir
E dar vontade de rir e d´ir urinar.

Isso eu quis dizer naquele verso louco que tenho ao pé:
«O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é»
Verso que, como sempre, terá ficado por perceber (por mim até).
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Também aquela do «outrora-agora» e do «ah poder ser tu sendo
eu» foi um bom trabalho
Para continuar tudo co´a cara de caralho
Que todos já tinham e vão continuar a ter
Antes durante e depois de morrer.

[Mário Cesariny]