quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Momento "Já agora valia a pena pensar nisto"*
"Porra", disse a Marquesa batendo com as tetas na mesa. Mas lembrando-se da esmerada educação que tivera na Suiça, logo retirou "porra". E disse "chiça".
* com selo J.M.
* com selo J.M.
Por Dios!
Estou-me nas tintas para a vertente gaja-assanhada-de-língua-de-fora, definitivamente assumida. Mas a beleza dos elementos reveste-se de tantas peles que seria imperdoável não as destacar todas. E o que é facto é que este espécime comporta um je ne sais quoi entre o olhar profundo e uma pinta descomunal, a milhas de perfeições entediantes. Olé!
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Às seis da tarde
Às seis da tarde
as mulheres choravam
no banheiro.
Não choravam por isso
ou por aquilo
choravam porque o pranto subia
garganta acima
mesmo se os filhos cresciam
com boa saúde
se havia comida no fogo
e se o marido lhes dava
do bom
e do melhor
choravam porque no céu
além do basculante
o dia se punha
porque uma ânsia
uma dor
uma gastura
era só o que sobrava
dos seus sonhos.
Agora
às seis da tarde
as mulheres regressam do trabalho
o dia se põe
os filhos crescem
o fogo espera
e elas não podem
não querem
chorar na condução.
Marina Colasanti
as mulheres choravam
no banheiro.
Não choravam por isso
ou por aquilo
choravam porque o pranto subia
garganta acima
mesmo se os filhos cresciam
com boa saúde
se havia comida no fogo
e se o marido lhes dava
do bom
e do melhor
choravam porque no céu
além do basculante
o dia se punha
porque uma ânsia
uma dor
uma gastura
era só o que sobrava
dos seus sonhos.
Agora
às seis da tarde
as mulheres regressam do trabalho
o dia se põe
os filhos crescem
o fogo espera
e elas não podem
não querem
chorar na condução.
Marina Colasanti
Em digressão pelas Américas...
Já não falta muito. Além disso, estou cá bem. Não custa esperar pelo voo, embora às vezes pareça que não há meio de chegar a hora. Nem sei bem o que vou lá fazer: conhecer, viver mais, pôr à prova a autonomia, o desenrasca. Mas volto, prometo! Que eu até posso ser do mundo, mas o que eu sou mesmo é daqui. Do campo que é este país quando comparado com a imensidão do sul das américas. Sou daqui. De perto dos que quero bem e que a mim me querem ao alcance de um abraço a qualquer hora. Podem lá os telefone e toda a aparelhagem internáutica encurtar distâncias... Ainda por cima se levo comigo todas as resistências que sempre tive à novidade tecnológica. Sozinha? Até pode ser, mas já esteleci aí um contactozito que é capaz de não se fazer rogado a pôr a mochila às costas e partir para estas descobertas e, se ainda nos conhecermos por essa altura, talvez possamos propor-nos escrever aí umas peças para piano a quatro mãos. Daquelas que ficam guardadas no segredo dos deuses, naquelas caixas secretíssimas que se escondem debaixo da cama ou no fundo dos armários, e que a descendência só descobre muitos anos depois, quando já o pó e os bichos tudo comeram, menos as memórias dos que por lá passaram. Não, a minha caixa de segredos há-de ser para partilhar com eles, com os mais pequenos, para que saibam quem fui, onde vivi, quando me descobri, com quem me partilhei, com quem não me quis partilhar e porquê... Vai ser giro revolver ao serão as memórias em voz alta, responder a inquiridores curiosos, ali mesmo junto à braseira. Com a casa cheia!
No encalço da essência...
"But for those like us, our fate is to face the world as orphans, chasing through long years the shadows of vanished parents. There is nothing for it but to try and see through our missions to the end, as best we can, for until we do so, we will be permitted no calm." (When we were orphans, Kazuo Ishiguro)
A minha mãe diz que cada um de nós vem à Terra com uma missão. Ainda não descobri a minha e, talvez por isso, sinta esta inquietação permanente, este contrário da acalmia que, de vez em quando, tanto desejava ter. Mas a procura da essência é mesmo assim: um caminho de espinhos para no fim colher as rosas que por lá sempre estiveram mas que não conseguíamos ver.
A minha mãe diz que cada um de nós vem à Terra com uma missão. Ainda não descobri a minha e, talvez por isso, sinta esta inquietação permanente, este contrário da acalmia que, de vez em quando, tanto desejava ter. Mas a procura da essência é mesmo assim: um caminho de espinhos para no fim colher as rosas que por lá sempre estiveram mas que não conseguíamos ver.
domingo, 24 de fevereiro de 2008
Esta noite

Dispidida foi coisa que não quisemos fazer. Mais uma senhora que me deixa sem palavras. O concerto inteiro foi a puxar pela terra, pelo calor, pelo castanho, pelo batuque da saudade, da paixão e da identidade. Em momento algum aqueles músicos, com alma nos dedos, perderam a sintonia daquela voz doce, quente, rouca e sensual daquela menina de nome Mayra. Como se tal bela mulher personificasse Cabo Verde esta noite, ao emanar genuinidade por todos os poros e a fazer-nos suster a respiração a cada nota. Muito bonito.
Lua, Mayra Andrade
"Muito pra mim é tão pouco e pouco eu não quero mais"
Perturbas-me, já sabes. De noite vens de mansinho sussurrar-me palavras indecentes ao ouvido, para me atormentares os sonhos e me fazeres vaguear em fantasias caladas. Os dias nascem e a calmia regressa só até cair o sol de novo e com ele o teu sopro, a trespassar-me a alma e a gelar-me os ossos.
Quero-te no hoje, o que significa amanhã? Já nada faz sentido entre o amar, o confiar, o desejar e o pensar. Há uma mescla colorida de quereres, como um lindo bouquet de rosas com pequenos espinhos escondidos, bem apertadinhos em papel de prata para não magoar, mas sem lhes retirar a essência.
Se calhar assustaram-me os olhos que penetram e ferem o meu mais secreto, de tão sinceros e intensos. Não tenho a mínima vontade de mergulhar no oculto e não me move a luxúria, mas impõe-se o mais e o melhor de cada partícula dos dias partilhados. Nada menos que isso. Tudo de mim a seguir.
Muito pouco, Maria Rita
Quero-te no hoje, o que significa amanhã? Já nada faz sentido entre o amar, o confiar, o desejar e o pensar. Há uma mescla colorida de quereres, como um lindo bouquet de rosas com pequenos espinhos escondidos, bem apertadinhos em papel de prata para não magoar, mas sem lhes retirar a essência.
Se calhar assustaram-me os olhos que penetram e ferem o meu mais secreto, de tão sinceros e intensos. Não tenho a mínima vontade de mergulhar no oculto e não me move a luxúria, mas impõe-se o mais e o melhor de cada partícula dos dias partilhados. Nada menos que isso. Tudo de mim a seguir.
Muito pouco, Maria Rita
Lisboa

Lisboa e o Tejo, Domingo,
Carlos Botelho
"Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade a navegar. Não me admiro: sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico dum miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro, e até a brisa que corre me sabe a sal. Há ondas de mar aberto desenhadas nas tuas calçadas; há âncoras, há sereias. O convés, em praça larga com uma rosa-dos-ventos bordada no empedrado, tem a comandá-lo duas colunas saídas das águas que fazem guarda de honra à partida para os oceanos. Ladeiam a proa ou figuram como tal, é a ideia que dão; um pouco atrásm está um rei-menino montado num cavalo verde a olhar; por entre elas, para o outro lado da Terra e a seus pés vêem-se nomes de navegadores e datas de descobrimentos anotados a basalto no terreiro batido pelo sol. Em frente é o rio que corre para os meridianos do paraíso. O tal Tejo de que falam os cronistas enlouquecidos, povoando-o de tritões a cavalo de golfinhos.
(...)
«Noutros tempos, longos tempos, havia em Lisboa uma sereia...» Conheço uns versos de Robert Desnos que começam desta maneira mas é melhor ficar por aqui porque o Tejo não é de fábula nem de poema e corre sem nostalgias. E Lisboa a mesma coisa, disso podemos estar nós bem seguros. Só que, com o saber dos séculos e os sinais de muito mundo que a perfazem, sugere várias leituras, e daí que a cada visitante sua Lisboa, como tantas vezes se ouve dizer.
Daí também que nós, os que somos dela, lhe estejamos tão errantes na paixão. Um dia pode acontecer que, sentados como agora sobre o rio, a tentemos ler pela voz dos outros e então ainda nos sentiremos mais errantes, mais incertos. Entre uma Lisboa de Tirso de Molina, saudada como «a oitava maravilha», e a Lisboa que Fielding, o genial, amaldiçoou como um pesadelo leproso, correm águas insodáveis. Beckford viveu-a em palácio, Sade inventou-a num cárcere de rancores. «Lisboa oferece uma apreciável variedade de escolhas para um nobre suicídio», escreveu um dos grandes narradores dela, Antonio Tabucchi. Vozes, tudo vozes. Olhares. Memorações.
Quando por fim fechamos a página onde líamos a cidade, descobrimos que a vidraça do café está toldada por uma dança de gaivotas em turbilhão e que não há Tejo. Que desapareceu por trás duma desordem de asas e já não é prenúncio de oceano.
Então, ternamente, confiadamente, reconhecemo-nos ainda mais âncorados à cidade que nos viu partir. "
Lisboa, Livro de Bordo - vozes, olhares, memorações, José Cardoso Pires (2001)
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Já foi há 1 ano?
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