sexta-feira, 31 de julho de 2009
Coisas
Que eu sou um bocado destravada já não é novidade para ninguém. É coisa que já não surpreende nenhum dos mortais que comigo se cruza. Há até quem me apelide de Louca! Mas adiante... Apesar disso, consigo a proeza de continuar a surpreender-me a mim própria. Acabei de ir da casa de banho. Depois do xixi, parei-me em frente ao espelho enquanto lavava as mãos e achei a camisolinha que trago vestida (que é nova!) muito original: "Ah! Que giro! Os quatro botõezinhos que tem à frente não se vêem senão do lado de dentro. Viste?! Ele há coisas... Já fazem de tudo!". Mas não fiquei convencida. Tornei a olhar, agora com mais atenção e... "As costuras a verem-se também?! Mau! Isto é demasiada originalidade, não?". Então não é? Trouxe esta merda vestida ao contrário desde casa e só reparei agora. Já falei com o senhor do bar, com a senhora da portaria, já dei informações a um estudante que por aqui andava perdido e tudo assim com esta originalidade toda. Por sorte cortei aquela etiqueta enorme que costuma vir dentro, precisamente agarrada à costura de um dos lados. Não é uma loucura, mas é uma "baita" de uma distracção. Enfim, é o que faz ficar acordada até tarde, dormir pouco e, sobretudo, ser míope!
Sincerely, L. Cohen
Foi assim que tentou ontem fechar o concerto, mas o público pediu mais. Tocou mais umas quantas, terminou com aquilo a que chamou uma oração, após o que juntou os músicos para trautearem uma melodia enquanto ele se ocupava das despedidas. O L. Cohen é um senhor! Humildade, simpatia, bom gosto e tudo o mais se tudo o mais coubesse nas palavras. Foram cerca de 2h30 de boa música, boa disposição. Sossego. A minha mãe esteve num misto de sossego e nervosismo, a barriguinha às voltas, tal e qual uma adolescente. Agradeço ao Cohen ter-lhe proporcionado tanta emoção. Um dia, quando ela for, irá mais feliz, é um sonho concretizado. Mas esse dia terá que tardar porque ainda preciso daquela mão a agarrar cheia de força na minha em mais duas ou três mãos cheias de concertos.
[Propositadamente subtraio-me ao sacrifício de fazer referência ao péssimo som que chega aos balcões no Pavilhão Atlântico. É um pormenor mesmo muito pequenino...]
[Propositadamente subtraio-me ao sacrifício de fazer referência ao péssimo som que chega aos balcões no Pavilhão Atlântico. É um pormenor mesmo muito pequenino...]
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Look me in the eye and tell me love is never based upon insanity
Cheira a noite, casa e média luz. A corpos emaranhados, suados, sedentos. Cheira a Verão também. Ao desejo de um fim de tarde na praia, sem tempo, à sombra de uma rocha, dentro de uma gruta. Os dois. E a Melody.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Eu deixava...
Por estes dias

A ansiedade, o coração apertadinho. "Estará bem?", "Tenho que fazer a mala!", "Quanto tempo mais?", "Vai doer?", "Será perfeita e sáudável?", "Falta comprar isto!", "Não te enerves, não lhe faz bem!"
Vou comparando barrigas, para me distrair...
Leituras aleatórias
"Estavam ali diante dos meus olhos, e era terrível e ao mesmo tempo fascinante.
Ao princípio pensei que ele a estava a matar, logo a seguir percebi que não, que talvez ambos estivessem a morrer, só depois qualquer apelo misterioso e distante se fez carne em mim. Então todo eu fiquei amarrado aos seus gestos, àquela respiração fatigada e difícil, àquele balbucio que lhes saía ralo da boca.
Os seios de Maria caíam nus da blusa. Uma das mãos do carpinteiro perdia-se nos seus cabelos emaranhados, a outra parecia ter-se enterrado na areia. O resto era aquele corpo todo de homem fremente e quase hirto, ao mesmo tempo, à força de concentrar o ímpeto nas nádegas , arco donde a flecha partia, para se cravar, com uma violência próxima do desespero, nas entranhas ardentes e sombrias da rapariga. Parecia um cavalo ofegante - os olhos cerrados, o suor escorrendo da raiz dos cabelos, espalhando-se pelas costas, pelos flancos, pelas pernas, quase todas descobertas. Um cavalo cego mordendo o céu branco de Agosto. Mas a voz da terra chamou-o, e um relincho prolongado encheu o leito do ribeiro e morreu no alto dos amieiros. Por fim a paz de Deus desceu ao mundo.
Maria olhava o carpinteiro com uns olhos rasos de espanto, como quem tivesse perdido tudo naquele instante. Lentamente passou-lhe a mão pelo cabelo, numa carícia tímida, e começou a chorar. O carpinteiro olhou-a também, mas os seus olhos eram diferentes, havia neles sombra e solidão. Eram uns olhos nocturnos, negros como poços fundos, afirmavam a morte.
Sem uma palavra, o homem ergueu-se e começou a mijar.
(...)
Era um silêncio no areal, nas árvores, nas nuvens. Um silêncio na tarde, na rua, nas casas. Um silêncio no pão, na água. Um silêncio que se tornava dia a dia mais pesado, mais devorador.
Um silêncio feito dos seios de Maria, dos flancos suados do carpinteiro, que me despertava a carne durante a noite, me fechava os olhos pela madrugada, me dava vontade de fugir durante o dia..."
Eugénio de Andrade, Fábula [in Correia, Natália (2008, 5.ª edição). Antologia Portuguesa de Poesia Erótica e Satírica. Lisboa: Antígona - Frenesi]
Ao princípio pensei que ele a estava a matar, logo a seguir percebi que não, que talvez ambos estivessem a morrer, só depois qualquer apelo misterioso e distante se fez carne em mim. Então todo eu fiquei amarrado aos seus gestos, àquela respiração fatigada e difícil, àquele balbucio que lhes saía ralo da boca.
Os seios de Maria caíam nus da blusa. Uma das mãos do carpinteiro perdia-se nos seus cabelos emaranhados, a outra parecia ter-se enterrado na areia. O resto era aquele corpo todo de homem fremente e quase hirto, ao mesmo tempo, à força de concentrar o ímpeto nas nádegas , arco donde a flecha partia, para se cravar, com uma violência próxima do desespero, nas entranhas ardentes e sombrias da rapariga. Parecia um cavalo ofegante - os olhos cerrados, o suor escorrendo da raiz dos cabelos, espalhando-se pelas costas, pelos flancos, pelas pernas, quase todas descobertas. Um cavalo cego mordendo o céu branco de Agosto. Mas a voz da terra chamou-o, e um relincho prolongado encheu o leito do ribeiro e morreu no alto dos amieiros. Por fim a paz de Deus desceu ao mundo.
Maria olhava o carpinteiro com uns olhos rasos de espanto, como quem tivesse perdido tudo naquele instante. Lentamente passou-lhe a mão pelo cabelo, numa carícia tímida, e começou a chorar. O carpinteiro olhou-a também, mas os seus olhos eram diferentes, havia neles sombra e solidão. Eram uns olhos nocturnos, negros como poços fundos, afirmavam a morte.
Sem uma palavra, o homem ergueu-se e começou a mijar.
(...)
Era um silêncio no areal, nas árvores, nas nuvens. Um silêncio na tarde, na rua, nas casas. Um silêncio no pão, na água. Um silêncio que se tornava dia a dia mais pesado, mais devorador.
Um silêncio feito dos seios de Maria, dos flancos suados do carpinteiro, que me despertava a carne durante a noite, me fechava os olhos pela madrugada, me dava vontade de fugir durante o dia..."
Eugénio de Andrade, Fábula [in Correia, Natália (2008, 5.ª edição). Antologia Portuguesa de Poesia Erótica e Satírica. Lisboa: Antígona - Frenesi]
segunda-feira, 27 de julho de 2009
A saudade é o revés de um parto
A melhor canção sobre "fins". É muito, muito bonita. Fala de saudade como nenhuma outra. Da perda, do final daquilo que havia a dois e que acabou. Do sentimento que fica, como que entranhado, sem forma de sair, a corroer. "Cutucando, relembrando, reabrindo a mesma velha ferida", como dizia a Maria Rita.
Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus
Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus
domingo, 26 de julho de 2009
And the stars look very different today
Desde ontem que ando com esta na cabeça. Não me farto de a trautear. É bonita na voz do Bowie, mas tem outra magia aqui cantada pela Natalie Merchant! Não conhecia esta versão, mostrou-ma uma amiga um destes dias. Obrigada R. [O crescendo do 1min 17seg ao 1min 28seg é delicioso!]
sábado, 25 de julho de 2009
Máquina Fotográfica

É na câmara escura dos teus olhos
que se revela a água
água imagem
água nítida e fixa
água paisagem
boca nariz cabelos e cintura
terra sem nome
rosto sem figura
água móvel nos rios
parada nos retratos
água escorrida e pura
água viagem trânsito hiato.
Chego de longe. Venho em férias. Estou cansado.
Já suei o suor de oito séculos de mar
o tempo de onze meses de ordenado;
por isso, meu amor, viajo a nado
não por ser português mal empregado
mas por sofrer dos pés
e estar desidratado.
Chego. Mudo de fato. Calço a idade
que melhor quadra à minha solidão
e saio a procurar-te na cidade
contrastada violenta negativa
tu única sombra murmurada
única rua mal iluminada
única imagem desfocada e viva.
Moras aonde eu sei.
É na distância
onde chego de táxi.
Sou turista
com trinta e seis hipóteses no rolo;
venho ao teu miradoiro ver a vista
trago a minha tristeza a tiracolo.
Enquadro-te regulo-te disparo-te
revelo-te retoco-te repito-te
compro um frasco de tédio e um aparo
nas tuas costas ponho uma estampilha
e escrevo aos meus amigos que estão longe
charmant pays
the sun is shining
love.
Emendo-te rasuro-te preencho-te
assino-te destino-te comando-te
és o lugar concreto onde procuro
a noite de passagem o abrigo seguro
a hora de acordar que se diz ao porteiro
o tempo que não segue o tempo em que não duro
senão um dia inteiro.
Invento-te desbravo-te desvendo-te
surges letra por letra, película sonora,
do sendo à vogal do tema à consoante
sem presença no espaço sem diferença na hora.
És a rota da Índia o sarcasmo do vento
a cãibra do gajeiro o erro do sextante
o acaso a maré o mapa a descoberta
dum novo continente itinerante.
Ary dos Santos
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