Que Deus? Que Deus permite tristezas profundas como a perda de alguém? Que Deus tem a ousadia de o fazer sem nos ensinar a sobreviver a uma perda? Quem é esse Deus que não nos ensina a fazer o luto e nos deixa à mercê de saudades que nos vão comendo o sentido de viver e nos fazem questionar se valerá a pena ir à luta amanhã, outra vez...? Acreditar em algo que nos transcende é próprio dos fracos, dizem-me. Delegar o papel de personagem principal a Outro, irrita-me, acrescento. Não posso com quem diz que seja o que Deus quiser ou que isto ou aquilo aconteceu porque Deus assim quis. Mas o que se diz nem é o mais importante. Não há cá crónicas de mortes anunciadas que nos ajudem à antecipação de mecanismos de sobrevivência à dor. Vais sofrer, disso não te livras!, convenço-me. Eu cá, tive que fazer esse luto uma vez, apenas. E o que me custou quando do outro lado da linha me anunciaram, por meio de palavras moles, a morte de quem me era tão querido... Questionei o mesmo Deus que questiono agora. Como um sopro de vida, a revolta foi-se dissipando. Sem correr. Bem devagar. Escrevi-lhe várias vezes, sonhei com ele outras tantas, mas hoje estamos em paz. Sorrio-lhe de cada vez que me acena à lembrança. Outras vezes o coração fica pequenino: quando me apercebo que o não voltarei a ver...
Quando me perguntam se tenho medo da morte. Respondo redonda e imediatamente que essa morte não, não me aflige. Inquieta-me a possibilidade de ir morrendo por dentro mas, mais do que isso, aterroriza-me a morte dos que mais quero não por não mais poder sentir-lhes a carne, mas porque, apesar de feito o luto, acharei sempre que foi injusta a viagem que encetaram pela mão de um tal deus. Por isso, faço como os outros: facilito. E imagino paraísos verdejantes para aqueles que se foram um dia.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
terça-feira, 28 de outubro de 2008
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Do lado de cá, com amor
Cinco anos volvidos, meu velho, e as saudades por cá continuam. Assim como o teu sorriso, o toque do meu beijo na tua testa, o teu polegar partido, as sonecas depois do almoço, as enormes dentadas nos nossos gelados ou os Natais na mercearia vivem guardados nas minhas memórias mais bonitas. Teimosa, continuo a guardar o nosso último almoço juntos em tua casa e a silenciosa e pesada viagem de regresso à minha. Culpo-me por não te ter feito falar, por antes ter preferido ir desenhando cenários que explicassem as razões para a agonia que te descobria. Ensombram-me, por vezes, estas imagens, mas já vou tarde...
Integrei a tua ausência no bater do coração dos meus dias, por isso, e apesar das saudades, vives em mim e fazes da minha vida uma existência muito mais feliz. Obrigada.
Neta
Integrei a tua ausência no bater do coração dos meus dias, por isso, e apesar das saudades, vives em mim e fazes da minha vida uma existência muito mais feliz. Obrigada.
Neta
terça-feira, 21 de outubro de 2008
O meu umbigo
Quando pouco mais importa à nossa volta do que o nosso próprio umbigo esquecem-se os outros. As suas vontades, interesses, inquietações, necessidades. Desde que as nossas estejam satisfeitas, pouco mais conta. Até mesmo quando nos faltam muitas coisas, mas faz tempo que deixámos de as considerar. Assim vive quem vive só para si.
Mas nem por isso deixam de se fazer exigências. Exige-se tempo, companhia, atenção, carinho, amor. E mais tempo, e mais companhia, e mais atenção, e mais carinho, e mais amor. Em troca dá-se o tempo que não nos faz falta, a companhia que já não precisamos de fazer a nós próprios, o que sobra da atenção que já nos demos, o carinho e o amor quando a nós já demos o suficiente. Fazemos o que nos dá na real gana e vivemos em paz porque achamos que o que temos a mais e não precisamos é o que basta aos outros.
É um facto que todos temos uma boa dose de egoísmo. Aliás, o egoísmo é a base de muitas das relações que mantemos com o mundo. Eu estou bem, espero que tu também. Se eu estou bem, tu também, com certeza. Ou Porque é que não hás-de estar bem se te dou tanto?
E impõe-se a pergunta: Que tanto é este que damos e que até podemos saber não ser o bastante, mas que teimamos em não aumentar e melhorar por lesar o nosso suposto bem-estar?
Também esta leitura pode ser egoísta, diz-me tu se estou enganada...
Mas nem por isso deixam de se fazer exigências. Exige-se tempo, companhia, atenção, carinho, amor. E mais tempo, e mais companhia, e mais atenção, e mais carinho, e mais amor. Em troca dá-se o tempo que não nos faz falta, a companhia que já não precisamos de fazer a nós próprios, o que sobra da atenção que já nos demos, o carinho e o amor quando a nós já demos o suficiente. Fazemos o que nos dá na real gana e vivemos em paz porque achamos que o que temos a mais e não precisamos é o que basta aos outros.
É um facto que todos temos uma boa dose de egoísmo. Aliás, o egoísmo é a base de muitas das relações que mantemos com o mundo. Eu estou bem, espero que tu também. Se eu estou bem, tu também, com certeza. Ou Porque é que não hás-de estar bem se te dou tanto?
E impõe-se a pergunta: Que tanto é este que damos e que até podemos saber não ser o bastante, mas que teimamos em não aumentar e melhorar por lesar o nosso suposto bem-estar?
Também esta leitura pode ser egoísta, diz-me tu se estou enganada...
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Curtas [15]
"Quando o coração se fecha faz muito mais barulho que uma porta."
[in Livro de Crónicas, António Lobo Antunes]
[in Livro de Crónicas, António Lobo Antunes]
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Fim de tarde sem cheiro a castanhas
Falta-me o Outono como o tenho guardado no imaginário. Primeiro a mercearia dos avós cheia de rebuçados e pão quentinho a transbordar tulicreme, a salamandra acesa e o quando cai a noite na cidade a seguir ao telejornal. Depois os fins de tarde com livros e cadernos debaixo do braço rumo a casa. Falta-me o chegar a casa e ser tudo mais fácil. As brigas por um lugar no pequeno sofá e pelo monopólio do comando da televisão que eu sempre ganhava à minha irmã. Mas ela também já cresceu e decerto falta-lhe tanto como a mim. Falta-me o pouco espaço que tínhamos naquele cantinho. Desde que nos mudámos, tudo mudou. O nosso mundo cresceu e isso trouxe tanto de bom como de assim-assim. Faltam-me as fornadas de bolinhos tipo rolha que comíamos desalmadamente [nunca mais nos atrevemos a fazê-los desde a última barrigada há coisa de 12 anos]. O acordar a meio da noite, suster a respiração para sentir a delas e, assim, saber que estavam bem. Isso também me falta.
Falta-me aquilo que ainda não sou capaz de fazer: correr daqui para fora e calcorrear sozinha esta cidade que acho que sinto ainda mais bonita quando iluminada em noites escuras. Falta-me o por fim entrar na casa que me falta, escolher o livro, servir uma taça de vinho, acender o candeeiro de pé alto e o cigarro, pôr a manta sobre as pernas na cadeira de baloiço e o piano do Sassetti no play e, entre o folhear de cada página, erguer o olhar e apreciar este quarto de Van Gogh.
Se calhar o que me falta é saber viver no Outono quando os dias ficam mais curtos e as saudades apertam e me fecho no medo que tenho dos outonos que, como paradoxo, adoro, por trazerem com eles o sabor amargo da solidão.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Errata
Queiram desculpar por me ter referido ao Sei Lá como uma cópia chapada de O Sexo e a Cidade no que respeita ao número de personagens femininos. Contei-os mal, neste último são só 4. No entanto, reitero a dúvida relativamente à originalidade da obra literária e parto-me a rir quando leio na lombada do dito livrinho qualquer coisa como "podemos afirmar que em Portugal há o romance antes e depois de Margarida Rebelo Pinto". De facto, não me lembro de se escrever e ler tanta merda como nos dias de hoje. Pobres gerações vindouras...
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
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